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  • #VoltandoAosCachos: Nádia Ribeiro

  • junho 8, 2018 // Comente

    Oi genteeee! Preparem-se que a história de hoje de #VoltandoAosCachos é lindíssima. Quem contou tudinho pra mim foi a Nádia Ribeiro de 22 anos, que nasceu em Araxá, Minas Gerais, mas mora atualmente em Presidente Prudente, São Paulo. Eu acho que muitas de vocês vão se identificar com o depoimento que ela mandou, então leiam tudo com carinho.

    E se você quiser mandar seu texto pra mim também, é só acessar essa página e ver como fazer. Quero muito conhecer a sua história!

     

    Eu pensei muito antes de decidir escrever isto. “A história do meu cabelo” nunca pareceu um bom tema para qualquer coisa na minha vida. Meu cabelo nunca teve uma história exclusiva, ele faz parte da minha história de autoconhecimento e luta. Então eu decidi que não vou contar a “história do meu cabelo”, eu vou falar da minha vida e meu cabelo faz parte dela. Eu me sinto na obrigação de dizer que é uma longa narrativa e que se você estiver disposta a “ouvir”, eu sugiro que encontre uma poltrona confortável e algo doce para mastigar. Vou te dar alguns minutos… Está pronta? Lá vamos nós.

    Como a maioria das histórias, a minha não gira em torno do meu cabelo. Eu sempre fui uma criança tímida e isso me tornava vulnerável, era como ter um grande alvo vermelho carimbado nas costas. Se você já assistiu qualquer filme norte-americano que se passa na High School, então você já conheceu alguém parecido comigo, mas, no meu caso, o bullying começou muito antes do ensino médio.

     

     

    Eu fui criada para ficar calada não importando as circunstâncias, então eu mantive a minha boca silenciosa como um túmulo no ambiente escolar desde o Jardim. Eu também nunca gostei de atenção, então ficar calada era vantajoso, pois me tornava invisível. Quando comecei a cursar a quinta série (ou sexto ano, eu não sei como é chamado atualmente) eu descobrir que ficar calada não me tornava realmente invisível, pois as minhas notas altas eram o bastante para me deixar em evidência. Por alguma razão que eu desconheço, eu estava em uma turma de alunos repetentes e/ou com notas baixas. O fato de ter um boletim cheio de “10” me fazia inteligente e legal, no entanto, este mesmo fato fazia com que aquela classe não me oferecesse tudo que eu poderia aprender, por esta razão eu fui remanejada para a primeira turma da escola. Foi lá que o pesadelo começou.

    Quando cheguei no grande e velho casarão que era a minha escola no primeiro dia de aula de 2007 e vi meu nome na lista de uma turma diferente da que estive nos dois últimos anos, eu senti o nervosismo crescer como a força de uma tempestade: primeiro, apenas alguns pingos grossos e depois, raios, enxurradas e vento derrubando toda a estrutura. Eu quis voltar a ser invisível, então me sentei na fileira da parede amarela manchada. Eu fantasiei que meu tom de pele faria o trabalho de me camuflar. Eu consegui durante um tempo, mas então as notas chegaram e as pessoas perceberam que eu não era apenas mais uma na classe, e sim alguém para disputar as estrelas douradas nos boletins. Eu era oficialmente uma CDF.

    Os nerd gostaram de mim, os populares não. Eu não precisei de muito tempo para descobrir que aquelas eram as únicas classificações possíveis no 7ºA: os nerds e os populares. Mas eu era carne fresca. Eu sempre tive problemas de socialização devido à timidez e ao silêncio constante, então eu fiz poucos amigos. Não demorou para me tornar um objeto de chacota.

     

     

    Eu tenho lembranças vívidas de algumas situações. Uma vez eu fui colocada no centro de uma rodinha de garotos e jogada de um para o outro até que eu virei o pé e caí. Eu ainda me lembro dos sorrisos que eles estampavam no rosto. Num outro momento eu trombei e derrubei uma garota na aula de Educação-Física e fiz o trajeto da escola até a minha casa em três minutos (não me lembro realmente, mas foi bem rápido) correndo como uma competidora de 100 metros rasos para não apanhar. Também me lembro de ir ao clube com a turma e, quando o meu cabelo secou naquele sol de rachar, fui apontada por uma colega. Eu ainda posso ouvir os gritos e as gargalhadas se me concentrar o suficiente.

    Naquela classe existia um bordão para quando as coisas davam errado. “É culpa da Nadia”. Parece engraçado para você? Eu não achava, mas todos os outros riam bastante. Eu tentei reclamar com a professora de Artes uma vez, mas ela disse que eu precisava resolver os meus próprios problemas. Eu não sei como o bullying pode não ser considerado um problema da escola. Foi a minha primeira e última tentativa. Nessa mesma época eu fazia parte do time de futsal da escola e era considerada uma das melhores. No time haviam pessoas com todas as orientações sexuais, mas a maioria eram garotas lésbicas. Foi então que eu conheci a LGBTfobia. Eu ainda era muito nova para entender a minha sexualidade, mas não era nova para aprender que amar outra garota era errado. O professor me ensinou isto muito bem.

    Quando eu terminei a oitava (ou nono ano) foi preciso mudar de escola, pois naquela não existia Ensino Médio. Eu vi aquilo como a chance de me libertar de todo o meu sofrimento. Eu decidi que não seria mais alvo de deboche, mas que para isso eu precisava mudar tudo aquilo que reforçava as marcas nas minhas costas. Eu odeio listas, mas fiz uma e dentro desta lista estava o meu cabelo. Eu comecei com chapinha, depois escova e chapinha e, por último, a progressiva. Eu não sofria mais com os colegas de classe, mas eu também não tirava mais 10, não fazia um minuto de silêncio e não tinha ideia de qualquer conteúdo. Eu era irresponsável, teimosa, namorada de boy popular e lisa.

     

     

    Eu tinha uma rotina capilar cansativa. Era chapinha duas vezes por semana e meu cabelo sempre foi longo, o que me exigia duas chatérrimas horas na frente do espelho. Foi para me livrar disso que optei pela progressiva e então eu apenas secava rapidamente com o secador. Nesta época eu já estava com 16 anos. Foi também quando eu conheci a comunidade LGBT. Foi ao passo em que eu descontruía o preconceito de orientação sexual e de gênero que eu também passei a perceber tudo que era imposto pela sociedade e me engajar a lutar contra o sistema. Ainda com 16 anos eu me apaixonei por uma garota. Foi um período difícil da minha vida em que muita coisa estava acontecendo. O amor é meio louco, não é? Eu terminei o meu relacionamento com o tal “boy popular” e comecei a me relacionar com esta garota. Ela foi como uma bússola na minha vida. Uma linda bússola cearense de lábios grossos e pele quente.

    Certa vez a minha bússola me perguntou sobre o meu cabelo. “Por que você alisa?”. Eu não me lembro a resposta que dei, mas me recordo do que ela disse. “Você devia deixar natural, eu aposto que é lindo”. Talvez estas não sejam as palavras exatas, mas era algo nesse sentido ou, ao menos, são as palavras que eu colocaria no roteiro do filme sobre a minha vida. Eu também me lembro que disse “não” para este comentário. Algum tempo depois nós fizemos uma viagem de uma semana para passar a virada do ano em Beagá (para os leigos, Belo Horizonte). Eu não levei secador nem chapinha e ela disse: “viu como seu cabelo não precisa ser alisado?”. Eu optei por não retrucar dizendo que tinha um pouco de progressiva nele.

    O fato é que eu trabalhei tudo que ela me disse durante anos, até que em 2014, ao me mudar para o interior de São Paulo para cursar Jornalismo (a vontade de mudar o mundo já havia plantado uma mudinha dentro de mim), eu descobri o significado de “derreter de calor”. A minha atual cidade faz 40ºC brincando. Eu já não aguentava mais passar duas horas de frente para o espelho alisando o cabelo. Nesta época eu já havia errado o suficiente com a minha bússola e não estávamos mais juntas, mas eu decidi que iria parar com a progressiva. Mas então o que fazer? Eu não gostava de YouTube, usava apenas para ouvir música e assistir novela, então não conhecia canais sobre cabelo. Também não era muito adepta de blogs. Eu decidi que iria simplesmente deixar o meu cabelo crescer e, enquanto isso, seguiria fazendo chapinha, pois eu não estava disposta a ficar com o cabelo curto nem com duas texturas. Isso tornou a minha transição muito mais demorada.

     

     

    Em janeiro de 2015 eu cortei o cabelo e tirei toda a progressiva. Meu comprimento ainda chegava um pouco abaixo do ombro. Foi então que comecei a me preocupar com a finalização. Eu não fazia ideia de técnicas, produtos ou inspirações. Já mais tecnológica do que no ano anterior, eu pesquisei sobre o assunto na internet e descobri alguns vídeos com tutoriais, então assisti vários e passei a testar o que era indicado. Aos poucos eu aprendi a deixar o cabelo definido e, com um pouco mais de paciência, aprendi a aceitar o volume como uma característica daquilo que é cacheado e crespo, e não como algo que precisa ser “domado”.

    Neste momento da minha vida eu já estava passando por muitas transformações. Ou melhor, por conscientizações. Eu entendi a minha sexualidade, o direito de não me rotular e a liberdade de amar pessoas e não gêneros. Eu descobrir o que é sororidade e encontrei a minha voz como mulher e o direito pela equidade. Eu aprendi que eu não tinha o direito de ficar quieta enquanto a sociedade ditava padrões nos quais ninguém autentico se encaixava. Eu me tornei uma militante de muitas causas e todas elas estavam dentro de mim desde o momento em que nasci como uma mulher cacheada e LGBT.

    O meu cabelo fez parte de um processo que tirou a venda dos meus olhos e me mostrou uma realidade que não pode continuar. Nunca foi só cabelo. Era identidade, autoaceitação, autoestima, respeito, liberdade e tantas outras coisas.

     

     

    O que é autoestima pra você? Autoestima é a liberdade de ser. Ser natural, ser autentica, ser você mesma, ser como nasceu ou como se tornou, pois o que importa é apenas ser aquilo que te faz sorrir quando se olha no espelho e mantém seu travesseiro seco durante a noite.

    O que mudou na sua vida depois que você se aceitou? Depois que eu me aceitei, em todos os sentidos e áreas da minha vida, eu consegui a coragem necessária para lutar por um mundo mais justo. Eu deixei de ser um túmulo e dei voz para tantas pessoas que ainda não conseguiram construir a escada que te tira do fundo do poço depois que a sociedade te joga lá. Eu sou um degrau dessa escada.

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