• 5 apps de fotografia pra vocA? baixar agora!

  • Testei a finalizaA�A?o DEDA?OLISS no meu cabelo!

  • #VoltandoAosCachos: Bruna Faustino Fabiano Augusto

  • junho 8, 2018 // Comente

    Oi genteeee! Preparem-se que a histA?ria de hoje de #VoltandoAosCachos A� lindA�ssima. Quem contou tudinho pra mim foi a NA?dia Ribeiro de 22 anos, que nasceu em AraxA?, Minas Gerais, mas mora atualmente em Presidente Prudente, SA?o Paulo. Eu acho que muitas de vocA?s vA?o se identificar com o depoimento que ela mandou, entA?o leiam tudo com carinho.

    E se vocA? quiser mandar seu texto pra mim tambA�m, A� sA?A�acessar essa pA?ginaA�e ver como fazer. Quero muito conhecer a sua histA?ria!

     

    Eu pensei muito antes de decidir escrever isto. a�?A histA?ria do meu cabeloa�? nunca pareceu um bom tema para qualquer coisa na minha vida. Meu cabelo nunca teve uma histA?ria exclusiva, ele faz parte da minha histA?ria de autoconhecimento e luta. EntA?o eu decidi que nA?o vou contar a a�?histA?ria do meu cabeloa�?, eu vou falar da minha vida e meu cabelo faz parte dela. Eu me sinto na obrigaA�A?o de dizer que A� uma longa narrativa e que se vocA? estiver disposta a a�?ouvira�?, eu sugiro que encontre uma poltrona confortA?vel e algo doce para mastigar. Vou te dar alguns minutos… EstA? pronta? LA? vamos nA?s.

    Como a maioria das histA?rias, a minha nA?o gira em torno do meu cabelo. Eu sempre fui uma crianA�a tA�mida e isso me tornava vulnerA?vel, era como ter um grande alvo vermelho carimbado nas costas. Se vocA? jA? assistiu qualquer filme norte-americano que se passa na High School, entA?o vocA? jA? conheceu alguA�m parecido comigo, mas, no meu caso, o bullying comeA�ou muito antes do ensino mA�dio.

     

     

    Eu fui criada para ficar calada nA?o importando as circunstA?ncias, entA?o eu mantive a minha boca silenciosa como um tA?mulo no ambiente escolar desde o Jardim. Eu tambA�m nunca gostei de atenA�A?o, entA?o ficar calada era vantajoso, pois me tornava invisA�vel. Quando comecei a cursar a quinta sA�rie (ou sexto ano, eu nA?o sei como A� chamado atualmente) eu descobrir que ficar calada nA?o me tornava realmente invisA�vel, pois as minhas notas altas eram o bastante para me deixar em evidA?ncia. Por alguma razA?o que eu desconheA�o, eu estava em uma turma de alunos repetentes e/ou com notas baixas. O fato de ter um boletim cheio de a�?10a�? me fazia inteligente e legal, no entanto, este mesmo fato fazia com que aquela classe nA?o me oferecesse tudo que eu poderia aprender, por esta razA?o eu fui remanejada para a primeira turma da escola. Foi lA? que o pesadelo comeA�ou.

    Quando cheguei no grande e velho casarA?o que era a minha escola no primeiro dia de aula de 2007 e vi meu nome na lista de uma turma diferente da que estive nos dois A?ltimos anos, eu senti o nervosismo crescer como a forA�a de uma tempestade: primeiro, apenas alguns pingos grossos e depois, raios, enxurradas e vento derrubando toda a estrutura. Eu quis voltar a ser invisA�vel, entA?o me sentei na fileira da parede amarela manchada. Eu fantasiei que meu tom de pele faria o trabalho de me camuflar. Eu consegui durante um tempo, mas entA?o as notas chegaram e as pessoas perceberam que eu nA?o era apenas mais uma na classe, e sim alguA�m para disputar as estrelas douradas nos boletins. Eu era oficialmente uma CDF.

    Os nerd gostaram de mim, os populares nA?o. Eu nA?o precisei de muito tempo para descobrir que aquelas eram as A?nicas classificaA�A�es possA�veis no 7A?A: os nerds e os populares. Mas eu era carne fresca. Eu sempre tive problemas de socializaA�A?o devido A� timidez e ao silA?ncio constante, entA?o eu fiz poucos amigos. NA?o demorou para me tornar um objeto de chacota.

     

     

    Eu tenho lembranA�as vA�vidas de algumas situaA�A�es. Uma vez eu fui colocada no centro de uma rodinha de garotos e jogada de um para o outro atA� que eu virei o pA� e caA�. Eu ainda me lembro dos sorrisos que eles estampavam no rosto. Num outro momento eu trombei e derrubei uma garota na aula de EducaA�A?o-FA�sica e fiz o trajeto da escola atA� a minha casa em trA?s minutos (nA?o me lembro realmente, mas foi bem rA?pido) correndo como uma competidora de 100 metros rasos para nA?o apanhar. TambA�m me lembro de ir ao clube com a turma e, quando o meu cabelo secou naquele sol de rachar, fui apontada por uma colega. Eu ainda posso ouvir os gritos e as gargalhadas se me concentrar o suficiente.

    Naquela classe existia um bordA?o para quando as coisas davam errado. a�?A� culpa da Nadiaa�?. Parece engraA�ado para vocA?? Eu nA?o achava, mas todos os outros riam bastante. Eu tentei reclamar com a professora de Artes uma vez, mas ela disse que eu precisava resolver os meus prA?prios problemas. Eu nA?o sei como o bullying pode nA?o ser considerado um problema da escola. Foi a minha primeira e A?ltima tentativa. Nessa mesma A�poca eu fazia parte do time de futsal da escola e era considerada uma das melhores. No time haviam pessoas com todas as orientaA�A�es sexuais, mas a maioria eram garotas lA�sbicas. Foi entA?o que eu conheci a LGBTfobia. Eu ainda era muito nova para entender a minha sexualidade, mas nA?o era nova para aprender que amar outra garota era errado. O professor me ensinou isto muito bem.

    Quando eu terminei a oitava (ou nono ano) foi preciso mudar de escola, pois naquela nA?o existia Ensino MA�dio. Eu vi aquilo como a chance de me libertar de todo o meu sofrimento. Eu decidi que nA?o seria mais alvo de deboche, mas que para isso eu precisava mudar tudo aquilo que reforA�ava as marcas nas minhas costas. Eu odeio listas, mas fiz uma e dentro desta lista estava o meu cabelo. Eu comecei com chapinha, depois escova e chapinha e, por A?ltimo, a progressiva. Eu nA?o sofria mais com os colegas de classe, mas eu tambA�m nA?o tirava mais 10, nA?o fazia um minuto de silA?ncio e nA?o tinha ideia de qualquer conteA?do. Eu era irresponsA?vel, teimosa, namorada de boy popular e lisa.

     

     

    Eu tinha uma rotina capilar cansativa. Era chapinha duas vezes por semana e meu cabelo sempre foi longo, o que me exigia duas chatA�rrimas horas na frente do espelho. Foi para me livrar disso que optei pela progressiva e entA?o eu apenas secava rapidamente com o secador. Nesta A�poca eu jA? estava com 16 anos. Foi tambA�m quando eu conheci a comunidade LGBT. Foi ao passo em que eu descontruA�a o preconceito de orientaA�A?o sexual e de gA?nero que eu tambA�m passei a perceber tudo que era imposto pela sociedade e me engajar a lutar contra o sistema. Ainda com 16 anos eu me apaixonei por uma garota. Foi um perA�odo difA�cil da minha vida em que muita coisa estava acontecendo. O amor A� meio louco, nA?o A�? Eu terminei o meu relacionamento com o tal a�?boy populara�? e comecei a me relacionar com esta garota. Ela foi como uma bA?ssola na minha vida. Uma linda bA?ssola cearense de lA?bios grossos e pele quente.

    Certa vez a minha bA?ssola me perguntou sobre o meu cabelo. a�?Por que vocA? alisa?a�?. Eu nA?o me lembro a resposta que dei, mas me recordo do que ela disse. a�?VocA? devia deixar natural, eu aposto que A� lindoa�?. Talvez estas nA?o sejam as palavras exatas, mas era algo nesse sentido ou, ao menos, sA?o as palavras que eu colocaria no roteiro do filme sobre a minha vida. Eu tambA�m me lembro que disse a�?nA?oa�? para este comentA?rio. Algum tempo depois nA?s fizemos uma viagem de uma semana para passar a virada do ano em BeagA? (para os leigos, Belo Horizonte). Eu nA?o levei secador nem chapinha e ela disse: a�?viu como seu cabelo nA?o precisa ser alisado?a�?. Eu optei por nA?o retrucar dizendo que tinha um pouco de progressiva nele.

    O fato A� que eu trabalhei tudo que ela me disse durante anos, atA� que em 2014, ao me mudar para o interior de SA?o Paulo para cursar Jornalismo (a vontade de mudar o mundo jA? havia plantado uma mudinha dentro de mim), eu descobri o significado de a�?derreter de calora�?. A minha atual cidade faz 40A?C brincando. Eu jA? nA?o aguentava mais passar duas horas de frente para o espelho alisando o cabelo. Nesta A�poca eu jA? havia errado o suficiente com a minha bA?ssola e nA?o estA?vamos mais juntas, mas eu decidi que iria parar com a progressiva. Mas entA?o o que fazer? Eu nA?o gostava de YouTube, usava apenas para ouvir mA?sica e assistir novela, entA?o nA?o conhecia canais sobre cabelo. TambA�m nA?o era muito adepta de blogs. Eu decidi que iria simplesmente deixar o meu cabelo crescer e, enquanto isso, seguiria fazendo chapinha, pois eu nA?o estava disposta a ficar com o cabelo curto nem com duas texturas. Isso tornou a minha transiA�A?o muito mais demorada.

     

     

    Em janeiro de 2015 eu cortei o cabelo e tirei toda a progressiva. Meu comprimento ainda chegava um pouco abaixo do ombro. Foi entA?o que comecei a me preocupar com a finalizaA�A?o. Eu nA?o fazia ideia de tA�cnicas, produtos ou inspiraA�A�es. JA? mais tecnolA?gica do que no ano anterior, eu pesquisei sobre o assunto na internet e descobri alguns vA�deos com tutoriais, entA?o assisti vA?rios e passei a testar o que era indicado. Aos poucos eu aprendi a deixar o cabelo definido e, com um pouco mais de paciA?ncia, aprendi a aceitar o volume como uma caracterA�stica daquilo que A� cacheado e crespo, e nA?o como algo que precisa ser a�?domadoa�?.

    Neste momento da minha vida eu jA? estava passando por muitas transformaA�A�es. Ou melhor, por conscientizaA�A�es. Eu entendi a minha sexualidade, o direito de nA?o me rotular e a liberdade de amar pessoas e nA?o gA?neros. Eu descobrir o que A� sororidade e encontrei a minha voz como mulher e o direito pela equidade. Eu aprendi que eu nA?o tinha o direito de ficar quieta enquanto a sociedade ditava padrA�es nos quais ninguA�m autentico se encaixava. Eu me tornei uma militante de muitas causas e todas elas estavam dentro de mim desde o momento em que nasci como uma mulher cacheada e LGBT.

    O meu cabelo fez parte de um processo que tirou a venda dos meus olhos e me mostrou uma realidade que nA?o pode continuar. Nunca foi sA? cabelo. Era identidade, autoaceitaA�A?o, autoestima, respeito, liberdade e tantas outras coisas.

     

     

    O que A� autoestima pra vocA?? Autoestima A� a liberdade de ser. Ser natural, ser autentica, ser vocA? mesma, ser como nasceu ou como se tornou, pois o que importa A� apenas ser aquilo que te faz sorrir quando se olha no espelho e mantA�m seu travesseiro seco durante a noite.

    O que mudou na sua vida depois que vocA? se aceitou? Depois que eu me aceitei, em todos os sentidos e A?reas da minha vida, eu consegui a coragem necessA?ria para lutar por um mundo mais justo. Eu deixei de ser um tA?mulo e dei voz para tantas pessoas que ainda nA?o conseguiram construir a escada que te tira do fundo do poA�o depois que a sociedade te joga lA?. Eu sou um degrau dessa escada.

    ©2018 - Apenas Ana - Todos os direitos reservados // Design por Sara Silva